Sou leitor assíduo da coluna do Flávio Siqueira no site tudoradio.com, e no dia 14 fui surpreendido com toda a sinceridade de um profissional apaixonado por rádio que corajosamente deixou clara sua opinião e suas idéias sobre o momento que atravessa esse veículo tão esquecido nos últimos anos. Coaduno inteiramente com sua opinião e pedi sua permissão para reproduzir o conteúdo aqui no Blog.
Os Merdas da mídia
“Eu parei de fazer rádio FM jovem porque o rádio FM jovem se transformou no maior reduto de imbecis e medíocres da mídia. São os Merdas da Mídia. Todas se resumem a tocar as mesmas músicas, criatividade zero, não investem em conteúdo para o seu público e insistem em fazer do jabá sua única fonte de renda. Uma vergonha para todos os profissionais de comunicação”.
A declaração acima é de um amigo criativo, inteligente, que respeito muito e infelizmente acabou deixando o rádio. Hoje ele é diretor de TV em uma das emissoras mais importantes do país. Conhecendo-o sei que só disse o que disse porque ama o rádio.
Quando li o desabafo me incomodei. Estou no rádio faz vinte anos, fiz muitas coisas legais, trabalhei com muita gente boa, aprendi demais; não me considero um merda da mídia. Provavelmente você também não é. Mas diante do universo da comunicação que se expande, modifica, reorganiza, me diga com toda a sinceridade, o que somos?
Enquanto pensava no assunto, até por sugestão desse meu amigo, acessei um link no youtube onde um “locutor” oferecia seu poderoso off por 2 reais. Menos que meio quilo de salsicha! Achou barato? Tudo bem! Se quiser o áudio com super produção ele aumenta para 7 reais. Parece que o “locutor dez reais” virou coisa de um passado inflacionado.
Não somos os merdas da mídia. Apesar disso, confesso que tenho dificuldades em explicar porque deixamos de ousar. Por que ninguém cria? Por que as formulas se repetem? Por que ainda nos apegamos as criações de décadas passadas? Por que ainda usamos argumentos do tipo “eu acho”, “eu quero” e “porque sim” para justificar nossas decisões? Quando confrontado em relação a nossa falta de criatividade que abre portas para arrendamentos religiosos, políticos e afins, franzo a testa e mudo de assunto.
Não existe veiculo de comunicação que sobreviveu a tantas sentenças de morte como o rádio, mexemos com a imaginação, temos ferramentas para criarmos mundos na cabeça dos ouvintes, o som é nossa matéria prima e ele é ilimitado, nos permite modificá-lo, fazer o que quisermos, somos a mídia que mais pode se adequar às possibilidades da internet, somos bem mais ágeis e velozes que a TV, temos experiência em nos reinventar como ninguém, podemos acompanhar nossa audiência onde quer que estejam e dividir a atenção com suas tarefas do dia a dia, só o rádio é assim, então, por que raios tem gente nos chamando de merdas da mídia? Eu precisava de argumentos, não poderia deixar que essa frase rotulasse colegas competentes, afinal, se existem as maçãs podres, também existem as que se salvam.
Acessei a internet tentando encontrar boas publicações sobre rádio, cabeças pensantes que se propunham a discutir novas idéias, conteúdos realistas e adequados a cada público em busca de novas linguagens, propostas, perspectivas do rádio daqui para frente, emissoras ousadas… sei lá, alguma coisa que pudesse ajudar a contra argumentar em defesa dos profissionais do rádio. Resultado da busca: Sinceramente não encontrei nada.
Tentei me lembrar de nomes que dignificam o rádio, gente preparada que dedica grande parte de sua energia para melhorar o que temos no ar. É claro que eles existem e poderia citar vários agora, mas em seguida me lembrei que a maioria está cansada, sem muita esperança de grandes melhoras, motivados apenas pelo salário que nem é tão bom assim.
Mas tem o outro lado.
Faz pouco mais de um mês que comecei a escrever um livro. É o terceiro que escrevo e o primeiro focado exclusivamente no rádio. Tenho ouvido a opinião de dezenas de colegas e tantos outros que, a partir de um convite feito na ultima coluna, tem escrito, sugerido temas, falado sobre as peculiaridades de cada mercado, suas ambições, contradições e propostas.
Convidei alguns profissionais boa cabeça, conceituados nas mais diversas áreas do rádio como locução, produção, jornalismo, direção, pesquisa, comercial e promoção para dizer o que pensam e explicar como trabalham. A maioria aceitou com entusiasmo e os textos estão chegando. Não deixei de dar “dicas” para quem chega e, sobretudo me esforcei para falar com quem já está no rádio e, talvez, como alguns amigos meus, desmotivados, perdidos, pensando em mudar de mídia, achando que não tem mais jeito, como se estivéssemos entre os “merdas da mídia”.
Por ser um profissional conhecido, manter uma coluna no site com maior penetração no mercado, realizado trabalhos fora do país, coordenado emissoras em importantes capitais do Brasil e ter tido alguma exposição em outras mídias, sinto-me com uma visão privilegiada do mercado na medida em que tantos colegas confiam em me escrever todos os dias contando o que vivem, são e esperam. É quase como um retrato do mercado no país.
Nos últimos tempos tenho pensado seriamente em um jeito de usar esse material em beneficio do mercado, criando fóruns de discussão, e outras ferramentas que facilitem a aplicação de tantas boas idéias em emissoras que estão sentindo a iminência de escolher: Ou se adequam e preparam para a nova comunicação, ou arrendam sua rádio para uma igreja. O livro será um primeiro passo, tenho planejado outros.
Nós somos o rádio e o rádio é fruto da maneira como pensamos e nos posicionamos.
Não somos os merdas da mídia, mas corremos serio risco de ocuparmos esse posto se não fizermos nada, especialmente agora, em tempo de cross midia e grandes revoluções.
É justamente quando as coisas mudam e o solo que parecia estável balança, onde as pessoas, comunidades, países e, por que não o rádio, são encurralados pela necessidade de reposicionamento, para em seguida rumarem em direção a novos argumentos, propostas que agreguem e sinalizem qual deverá ser o próximo passo.
Só é possível se for em conjunto, como iniciativa coletiva, seja de um mercado, classe ou organização que percebe a direção dos novos ventos e entende que isolados serão absorvidos pelas inevitáveis mudanças.
É preciso quebrar a cabeça, encontrar argumentos mais sedutores do que os atuais, formulas mais próximas dos ouvintes; focar nossa programação no que a maioria realmente quer ouvir.
A gente cresce quando pensa e se fortalece quando se une. É o que estou tentando fazer através das colunas, do livro e de outras iniciativas que virão.
Mas para que de certo preciso de sua ajuda.
Vamos nos falar, continue mandando e-mails, sinta-se a vontade para propor, opinar, criticar, desabafar… São pequenos movimentos, discussões que, a partir da leitura nascem aqui e ali, gente que começa a se incomodar, pensar diferente, fazer coisas novas percebendo que outros também sentem a mesma necessidade. Disso tudo, acredite, coisas boas surgirão.
Acho que existe um jeito de canalizarmos essa energia e tantas informações, insatisfações, anseios e sugestões em beneficio de todos. Me proponho a tentar.
Se não somos os merdas da mídia está na hora de mostrar quem somos.
Por Flavio Siqueira – 14/março/2011
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Valmir, primeiramente parabéns pelo bom conteúdo do seu blog. Tenho acompanhado-o com satisfação.
Sobre o texto do Flávio, tenho que admitir que foi ousado mas expressou de form bem clara esta era do rádio.
Mais uma vez, parabéns pelo post.
Comentário por Cristiano — 16/03/2011 @ 22:44
Olá Cristiano, achei o texto corajoso por se soltar do discurso “politicamente correto” que a maioria costuma fazer, infelizmente a realidade é muito triste, mas quem sabe ainda haja uma luz no fim do túnel. Um abraço.
Comentário por Valmir Rodrigues — 17/03/2011 @ 00:18
Olá, Walmir. Antes de mais nada, PARABÉNS pelo blog. Encontrei-o pelo google, quando pesquisava sobre o MIC MXL 770, onde assisti o seu vídeo, que gostei muito por nos dar um perfil e uma amostra do audio dele. Sou locutor também, e ainda um novato nessa caminhada, mas, aprecio as boas vozes. Já fiquei seu fã, tanto que já coloquei o blog nos meus favoritos.
Sobre o desabafo do Flávio Siqueira, não tenho tanta experiencia no ar para falar, mas, respeito a posição dele e discordo plenamente. Como você mesmo disse: SE NÃO SOMOS OS MERDAS DAS MÍDIAS, ENTÃO O QUE SOMOS?, eu, particlarmente, acredito que toda época tem a sua peculiaridade, e esse momento que atravessamos, é o mais progressita, pois a cada momento, novidades científicas e tecnológicas nos assombram e nos transforma, e graças a ela, o RÁDIO, tem se adequado aos novos tempos.
Eu não conheço o FLAVIO ou o trabalho dele no meio Rádio, mas, noto pelo desabafo dele, que ele desistiu de lutar…de inovar, ou como você, de pelo menos tentar lutar contra o que ele acredita ser tudo a mesmice no FM. “Várias cabeças pensam melhor do que apenas uma”, por isso, venho aqui mostrar meu apoio à sua bandeira, para discutirmos e procurarmos soluções, para não cairmos na “MESMICE” e não desistirmos da profissão que escolhemos e amamos.
Um assunto que sempre me preocupou e gostaria de colocar na mesa para discusão seria: OFF – COMO SER UM PROFISSIONAL DA VOZ E RECEBER O JUSTO PELO TRABALHO?…Como Cobrar? O que nós profissionais da voz podemos fazer para combater a “Prostituição”,com o perdão da palavra, de alguns que se dizem profissionais da voz?
Tenho muitas outras dúvidas para dividir com os colegas, mas, esta acima, com certeza, é a PULGA ATRÁS DA ORELHA de muitos.
Vou ficar na expectativa do seu comentário e dos nossos colegas de profissão que visitam seu blog. E mais uma vez, PARABÉNS & OBRIGADO.
Comentário por MARCIO NORY — 19/04/2011 @ 13:46
Oi Márcio, prazer receber uma pessoa tão esclarecida aqui no Blog. Que bom que você discorda do Flávio em alguns aspectos, é assim que se começa a mudança. Sobre a passagem no seu texto que diz “o RÁDIO, tem se adequado aos novos tempos”, permita-me discordar, penso que o rádio está preso a fórmulas tão antigas quanto a válvula, mesmo sendo ainda muito úteis não deixam de ser antigas. Enquanto tudo anda na velocidade da internet, o rádio perde facilmente a disputa para um pequeno aparelho de MP3. Imagino que o futuro que aguarda essa falta de modernização não seja dos melhores. Sobre a questão do Off, é bem improvável que consigamos uma mudança sem que a noção de qualidade esteja bem clara para quem contrata e paga um locutor que não valoriza seu trabalho. Tem muita coisa assustadora por ai e muita coisa com uma certa qualidade por preço de banana, só o mercado pode estabelecer esse critério. Em níveis bem acima desses profissionais “baratos” encontramos esse critério estabelecido por profissionais de ponta, mas esperar que todas as camadas atinjam tal nível de conscientização é uma utopia. Mas fica ai essa PULGA ATRÁS DA ORELHA. Um abraço e obrigado pela visita e opinião sincera.
Comentário por Valmir Rodrigues — 19/04/2011 @ 15:00